Reticências

marcam uma suspensão da frase, muitas vezes a elementos de natureza emocional. Indica um pensamento ou ideia que ficou por terminar e que transmite a omissão de algo que podia ser escrito, mas que não é. (...)

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Diário de bordo

Domingo, 31 de outubro, às 11:00 da manhã. - Ah, se eu tivesse dinheiro, eu iria pra Recife, hoje. - Nunca te paguei aquele dinheiro. - É mesmo. - 510 dividido por 3, igual 170. - 170?! Meu Deus! - Vai? - Vou! Preciso só fazer uma ligação pra ter certeza: - Ainda tenho minha vaga? - Tem.

Recife aí vou eu. E vou avisando poucas pessoas da minha partida.

Durante a viagem de ida, ligações inesperadas, ligações-perdidas-inesperadas, mensagens amigas, vícios proibidos e consumidos. Mas enfim, eu estava indo em uma viagem tão esperada que veio no fim, inesperadamente.
Eu escreveria isso aqui com mais rimas e melodias se tivesse sido no momento, mas passada algumas horas, detalhes se perdem. A paisagem do caminho é mais verde que a esperança e as montanhas são maiores que a de Maomé. Tinha sempre uma casinha branca solitária aqui e ali, enquanto as cidades não chegavam. As paisagens eram deixadas de serem admiradas quando o sol batia e as cortinas eram fechadas.
Foram os 2 dias em Recife mais realizadores do Mundo, em meio a conversas bobas depois de algumas cervejas na praia de Boa Viagem, mesmo passeando no shopping e dizerem: - Olha, o Fulano! - Ow, bobona, nem parece tanto assim. Deixa ele, deixa os outros. Deixa o nosso mundo pra lá, Teresina pela 1ª vez estava realmente longe.
Eu andei só de biquíni pela praia, não conhecia ninguém na cidade mesmo, tava nem aí; eu pisei na grama onde tinha dizendo pra não pisar, eu provei suco de mangaba. Eu andei de metrô e andei também até onde pude e até perceber que todas as padarias estavam fechadas em pleno feriado de Finados.
Tentei trazer presentes pra alguns amigos. Primeiro eu pensei em comprar um isqueiro, depois um chaveiro com o nome, depois um quadro, depois uma camisa, voltei com nada. Medo de não agradar, talvez e falta de dinheiro, com certeza. Afinal eu tinha um pouco menos de 50 reais agora. Longe de casa, certas pessoas são difíceis de presentear, eu queria trazer um mundo de presente dentro da mala.
Chorei. Chorei muito pelos altos pés de jambo: férteis e frutificados. Com mais um monte de jambos no chão machucados e cheios de formigas. Chorei por não poder alcançar os altos e não poder apanhar os caídos.
Comprei um livro que eu tanto queria. Cheguei perto de ter em mãos e pra sempre livros do Caio Fernando Abreu, uma única unidade de cada, mas foram perdidos no monte de outros livros na livraria.
Disse logo para as minhas amigas-escritoras: 'Na volta quero todo mundo escrevendo dentro do ônibus!' Eu queria saber se a sensação boa que tive aqui foi sentida por elas também.
A volta é nostálgica, a gente sempre tá deixando algo e voltando pra algo que deixou. Estamos deixando boas lembranças e ao mesmo tempo levando-as.
Estradas longas, estreitas e sem fim...
Bati palmas e levantei as mãos pro céu, por ter terminado de percorrer o  comprido Estado de Pernambuco e ter entrado em terras quentes e piauienses.

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